Saudades de 2000 – Allen Iverson

Este é um guia um tanto quanto informal dos ídolos da NBA na década passada. Não é saudosismo, nem a subvalorização das atuais estrelas da liga. Apenas apreciação de umas das melhores gerações, em quesito talento e estrelismo, que os amantes da NBA tiveram. Quaisquer traços de parcialidade ou empolgação exacerbada são mera coincidência.

Allen Iverson

Confesso que em minha carreira de colunista triveliano, ainda não havia encontrado desafio tamanho como o escrever sobre Allen Ezail Iverson. Ainda se eu o considerasse o meu preferido, ou o mais querido, ou o mais divertido de ver jogar, seria justificativa para tal pressão, afinal, clubismo e imparcialidade, nesta série, são separados por uma linha muito tênue. Muita gente que acompanha o basquete na NBA sabe do peso, influência que o The Answer teve sobre o jogo, culturalmente, acima de qualquer outro aspecto.  A responsabilidade de conseguir descrever sua carreira, desde os momento em que ele parecia um semi-deus imparável, até a mediocridade e, por muitas vezes, imbecilidade, toma proporções gigantescas pois, pense bem: como uma figura basquetebolística pode impactar toda uma geração de fãs e jogadores, alguns, num grupo ao qual pertenço, não cresceram na Philadelphia, nem escutam hip-hop carregados de termos pejorativos, nem usam as calças no meio das nádegas mostrando metade da cueca, nem correntes  que causariam hérnia de disco em adolescentes, muito menos tem um penteado que parece mais Cheetos sabor requeijão? Ainda assim, nem escrever sobre o melhor jogador pós-Jordan e seu legado ETERNO traz tanta responsabilidade quanto escrever sobre o baixinho, camisa #3 do 76ers. Essa é a figura de Iverson.

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“Hoje não tem treino. Oba!”

Abordar o aspecto do jogador de basquete Allen Iverson é a tarefa mais fácil deste artigo. Ele foi um dos scorers mais mortais que o jogo já viu. Fica explícito quando o talento reside no receptáculo chamado corpo humano e Iverson era a cheio dessa magia. Intrigante, revoltante, indiferente, seja a postura que for vinda do espectador, tamanho montante de habilidade ímpar em um homem colide com a sublimidade e a decepção, unidas, por muitas vezes. Existem casos, e não falo de basquete apenas, em que a repetição, a disciplina e ética de trabalho resultam em sucesso. Há casos, também, em que a junção de talento e disciplina exprime fenômenos singulares como Kobe Bryant, Michael Jordan e Brian Scalabrine. Não tento apresentar um ponto que idealiza Allen Iverson como um sortudo cheio de talento apenas (“we talkin’ bout PRACTICE?”), todos sabem que o bicho ralava o bigode nas quadras, mas como era talentoso o rapaz! Certamente, ao alto dos seus 1,83m e com as canelas de miojo, sua estrutura óssea não é das mais imponentes e jogando na posição de ala-armador presume-se que encontraria muitas dificuldades. Iverson contornava isso com um controle de bola magistral, agilidade insana, feeling (quase um sensor-aranha) e determinação implacável. Se ao invés de ser um ícone da Pensilvania, Iverson residisse no Mato Grosso, “aqui tem coragem” seria o slogan do camisa #3 do 76ers.

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Iverson quando vê que é segunda-feira, dia de treino.

Se a NBA é conhecida, nos dias de hoje, como um jogo para homens que evitam contato físico por receio de lascar as unhas, isso se deve pelo fato de outrora ser, justamente, o oposto. Não que a década de 2000 seja uma cópia exata e fiel dos anos 80 e dos Badboys de Detroit, mas o jogo era ‘pegado’, cheio de contato no garrafão e havia um aspecto que parece extinto do basquetebol atual, uma espécie de paixão adolescente: agarra no cangote, dá um cheiro, talvez mordida, um tapa, um soco e vontade de matar, logo após dizer “eu te amo”. A descrição também tem o apelido de defesa. Iverson era constantemente alvo dessa defesa, e apanhava bastante. Foi, assim como a maioria de sua geração, homem o bastante para jogar, mesmo lesionado ou cheio de hematomas. Chame de loucura, amor pelo jogo, estupidez ou seja o que for, Allen Iverson, rebelde, respirava basquete. Onze vezes um All Star, 7 vezes um All NBA Team, Calouro do Ano (1996-97), MVP de 2001, 4 vezes cestinha da temporada, recordista de roubos de bola em um jogo de playoffs, Hall of Famer, líder de minutos jogados OITO vezes na liga, camisa #3 aposentada pelo Philadelphia 76ers, 26.7ppj, 6.2apj e 2.2spj são alguns feitos de Iverson.

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“Carregado pelo Shaq”.
 – Se você não parar, serei obrigado a te mostrar arremessar e acertar.

Carreira

Nascido em Hampton, Virginia (1975), Allen foi criado por sua mãe-adolescente de 15 anos que, abandonada pelo pai da criança, teve a compaixão (ou como queira chamar) de nomear o garoto segundo o nome do plantador do feto. Ironicamente, um dos jogadores mais talentosos com uma bola de basquete na mão, teve como seu primeiro esporte o futebol americano. E ele era muito bom. Jogando de quarterback a running back (não manjo de nada deste esporte, porque é chato, mas me parece que ele era versátil), Allen também era o armador titular da equipe de basquete do colégio. Liderou ambas as equipes ao título estadual em seu segundo ano em Bethel High School. Levou o prêmio de melhor atleta do ano em ambos os esportes. Marrento ou não?

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Sem tatuagens é até mais magro.

Em 1993, nos primórdios de suas atitudes sem-noção, Iverson esteve envolvido – ainda que alegado por ele, que havia partido antes mesmo de ter começado – em uma treta condecorada de agressão física entre dois grupos, um de negros, outro de brancos, numa pista de boliche (se bolas foram lançadas contra crânios, apenas vídeos podem relatar. O Cesta de Trivela também é lido por crianças de 13 anos, ou menos, então fui censurado). Allen Iverson, que acusado de atingir uma mulher na cabeça com uma cadeira, junto a três de seus amigos foram presos, mas apenas Iverson indiciado a cumprir sentença, já que sua idade (17), no estado da Virginia, o qualificava como adulto. Sozinho e com um gancho de 15 anos de prisão, Iverson teve que se mostrar cabra macho, diante do mundo que caía à sua volta e, principalmente, da mídia enchendo o saco. Sendo amaciado por um corte de 10 anos dos quinze, Iverson precisou cumprir quatro meses apenas, devido ao pedido de clemência atendido pelo governador do estado. Não havia evidências o suficiente, então soltaram o menino. Devido ao tempo encarcerado, Allen não tinha permissão para completar o ensino médio em Bethel, sendo forçado a terminar os estudos em um colégio para meninos-veneno em Richard Milburn. No entanto, os três anos na antiga escola foram mais que o suficiente para atrair a atenção do treinador da Universidade de Georgetown, John Thompson, que ofereceu ao rapaz uma bolsa de estudos integral, para se juntar ao time de basquete.

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Saiu da prisão, ta mais humilde, sem risquinho no cabelo.

Em seu primeiro ano pelos Hoyas, Iverson (20.4ppj, 4.5apj e 3spj) levou o prêmio de calouro do ano da Big East e levou o time até o Sweet 16 da NCAA, onde perderam para o time da Universidade da Carolina do Norte, de Jerry Stackhouse e Rasheed Wallace. Em sua segunda e última temporada em Georgetown, Iverson guiou o time  a vencer a Big East, perdendo para Massachussets no Elite 8. Saiu de lá como o maior pontuador em média da história da universidade, que teve Patrick Ewing por quatro anos, com 23ppj de médias. Foi o primeiro jogador, sob o comando de John Thompson a deixar a universidade para ingressar na melhor liga de basquete do planeta, antes de concluir o curso. Prodígio ou rebelde, você escolhe. Se tornou elegível ao lendário draft de 1996, onde foi a primeira escolha do recrutamento, pelo Philadelphia 76ers.

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Na camisa, o número de vezes que o Jordan foi seco.

Todos são conscientes da tradição do 76ers. É um time de campeonatos, de sucesso em pós-temporadas em décadas passadas e de ídolos, ícones do jogo. Talvez quem acompanha a NBA há mais tempo que eu associe a franquia da Pensilvania a Wilt Chamberlain, Doctor J, Moses Malone ou até mesmo Charles Barkley. Eu apenas não consigo desvencilhar Allen Iverson do 76ers, e  a franquia do rebelde. Iverson não conquistou mais que os citados anteriormente, talvez seja o que menos o tenha feito, não apresenta números e prêmios como os titãs listados, mas é o que mais tem a cara do Philadelphia 76ers.

Para seguir o padrão nada-ortodoxo-de-ser de Allen Iverson, o baixinho foi o jogador mais desprovido de estatura a ser escolhido como a primeira opção do draft. Veio à liga com o pé na porta e consolidado como o melhor da classe, algo que mudaria posteriormente, apesar de este não ser o enfoque do texto, mas sim que Allen Iverson fazia jus à expectativa criada. The Answer não fazia do pífio time do Sixers uma máquina, saíram de uma campanha 18-64 a.I, para uma 20-62 d.I. , mas o homem era uma máquina de pontuar. Imagine um garotinho destemido na fila de próximos na quadra do bairro: espera pra entrar no time, segura a bola consigo na maior parte do tempo, mostra todo o talento, começa a humilhar com ‘dibres’ e gols, irrita os grandalhões e apanha. É ousado o bastante para fazer 37 pontos e desconsertar o dono da quadra e melhor jogador do bairro, campeão do rachão por três anos seguidos e considerado intocável por toda a molecada. Allen Iverson não se intimidava. Era descolado, rebelde, bem sucedido e inspiração para todo aquele que, imergido no mundo da NBA, almejasse ser grande ou, ao menos, conquistar reconhecimento.

Esse aí passou, esse aí passou ♪

Favorito a levar o prêmio de Novato do Ano, Allen jogava como veterano, sobrando em quadra e, com médias de 23.5ppj, 7.5apj e 2.1spj em 40mpj, angariou a condecoração, além de ter quebrado o recorde de Wilt Chamberlain de novato a marcar 40 pontos, ou mais, por três jogos consecutivos. Iverson fez cinco jogos com tais números, incluindo um com 50 pontos. Havia se tornado, em meio a tantas estrelas, um dos jogadores mais legais de assistir e símbolo do que havia de ‘errado’ na NBA: um armador que não fazia seus companheiros melhores, egoísmo, um volume muito alto de arremessos sem conversão, o desprezo pelos fundamentos do jogo, tatuagens, trancinhas no cabelo e a cultura das ruas, nas quadras.

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Fez um bom jogo, mesmo sem ir ao treino.

Na temporada seguinte, adições que viriam a ser conhecidas, (as vezes por merecimento, às vezes por “ah, esse cara foi carregado pelo Iverson”, ou ainda “só fazia o Iverson encher a pança de estatísticas vazias”), como Eric Snow, Aaron McKie e o respeitado e honrado técnico Larry Brown, foram adicionadas ao plantel da franquia da Philadelphia e seriam peças importantes das campanhas que colocariam o time na disputa pelo topo da liga, por anos seguidos. Em sua terceira temporada, a que foi encurtada pelo lockout, um grande salto foi dado pela equipe, que disputaria os playoffs pela primeira vez, desde que Iverson havia sido draftado. Nesta temporada, com 26.8ppj, 4.6apj e 2.3spj, Allen levou o prêmio de cestinha da temporada, o primeiro dos quatro, e entrou para o All NBA First Team, após levar o Sixers a um 28-22. Em 10 jogos disputados nos playoffs, Iverson teve médias de 28.5ppj, 4.9apj e 2.5spj, onde bateram o Orlando Magic de Dominique Wilkins e Penny Hardaway, no primeiro round e perderam para o Indiana Pacers de Reggie Miller na rodada seguinte.

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“Se você não tirar esse cheetos da cabeça, vou te por no banco.”

Na temporada 1999-2000, Iverson assinou uma extensão contratual de 70 milhões em 6 anos e, com médias de 28.4ppj, 4.7apj e 2.1spj, levou o Sixers aos playoffs mais uma vez, com uma campanha 49-33, na quinta colocação da conferência. Neste ano lançou o seu álbum de rap “40 bars”, com referências à sua prisão e a ser pego por posse de maconha e porte de armas. Selecionado ao All Star pela primeira vez na carreira, nos playoffs, apesar dos 26.2ppj, 4.8apj, 4rpj e 1.3spj, caíram para o Pacers de Miller na segunda rodada, pelo segundo ano consecutivo. Neste ano, ficou em sétimo na corrida pelo MVP, apesar de ser o único jogador, não chamado Shaquille O’Neal, a receber um voto, na temporada. Na offseason daquele ano, após recorrentes desavenças entre Iverson e o então técnico, Larry Brown, culminou em um Sixers efetivamente buscando uma troca pela jovem-talentosíssima-mas-rebelde-estrela. A troca foi finalizada e aceita por ambas as equipes, Sixers e Pistons, só esqueceram de avisar Matt Geiger, também envolvido na negociação, que, assim como eu faria, recusou perder 5 milhões de dólares. Nada feito e Iverson continuou na Pensilvania, para deleite de nossos olhos e saudosismo dos nosso corações. Como todo quase-fim de relacionamento, Iverson e Brown se desfizeram das desavenças e se uniram no objetivo comum de vencer um campeonato da NBA.

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“Coé, professor, agora é fechamento.”

Foi então, na seguinte temporada, onde o ser humano que acompanha a melhor liga de basquete do mundo pôde ver um Allen Iverson transformado, amadurecido (parecia, vai) com suas habilidades desenvolvidas ao extremo, a determinação e rebeldia de sempre, mais tatuagens, uma bandana com um #3, que parecia número de bingo, no braço, e atuações nível Hall da Fama, toda noite. Deslocado para a posição de ala-armador, de uma vez por todas, Iverson fazia de TODO defensor sua vítima. Era puro talento, magia e uma capacidade absurda de chamar a atenção. Seu drible, o crossover, eternizado, mesmo sem ser o criador, era o movimento que os garotos queriam saber fazer. Na temporada regular, 31.1ppj (maior da liga), 4.5apj e 2.5spj (maior da liga), conduziu a equipe ao melhor início de temporada regular com um 10-0, votado ao All Star Game, ao All NBA First Team, primeira colocação na conferência Leste (56-26) e aquela sensação de que a história estava sendo feita. Muita gente que gosta de dar pitacos (como eu) sobre a NBA, adora usar a palavra overrated (ou superestimado) para qualquer jogador, ou aspecto do jogo, que julgar conveniente. Michael Jordan, Shaquille O’Neal, Hakeem Olajuwon, Magic Johnson, Wilt Chamberlain, Kobe Bryant e tantas outras lendas já ganharam tal adjetivo. Por que o jogador que mais sofreu críticas, dos últimos anos da liga, sairia ileso disso? Até hoje muitos acham que ele, realmente, não foi tudo isso. A você, que pensa que Iverson teve tamanho impacto, apenas por ser a voz das ruas na televisão, vai por mim, para com isso! Foi o MVP mais baixo e leve da história.

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A cara de decepção porque a estátua não tem trancinhas.

Nos playoffs (32,9ppj, 6.1apj e 2.4spj) Iverson ativou seu modo ‘you-can’t-guard-me’ e fez, o que poucos seres humanos jogadores de basquete seriam capazes. Na primeira rodada, venceram, finalmente, o Pacers de Reggie Miller e, nas semifinais, aquele épico embate entre Sixers de Iverson e Raptors de Carter, jogos de 50 pontos de ambos e uma classificação sofrida em um jogo 7 de playoffs. Nas finais de conferência, venceram o Bucks de Ray Allen em 7 jogos, novamente. Foram para as finais, como francos não-favoritos, contra o supertime do Los Angeles Lakers de Shaq e Kobe ETERNO. É só ver a disparidade dos elencos, das campanhas (O Lakers de 15-1 nos playoffs, recorde), uma varrida é o que se espera. Jogo 1 em Los Angeles, no início do massacre, supõe-se, entra a cena do menino na quadra do bairro de novo: foi ao bairro vizinho jogar contra o time da casa, que tinha o grandão e melhor jogador do torneio, além daquele que viria a ser tornar o melhor, após o melhor de todos, a gangue que acompanha o rival é melhor e mais forte. Mas o menino é rebelde, o menino quer chamar a atenção, quer mostrar que pode. Iverson, sozinho, ganhou o jogo 1 em Los Angeles, quebrando o mando de quadra e colocando aquele ‘?’ no time da Califórnia. Não me venha com “basquete é um esporte coletivo”. Aquela série foi Los Angeles Lakers  4 x Allen Iverson 1. Quarenta e Oito pontos na fuça de Kobe Bryant , Ricky Fox e um Tyronn  Lue desmaiado e quase-pisado, eternizaram Iverson como um dos melhores do jogo, além de nos agraciar com um meme. Apesar de não conseguir repetir o nível nos jogos 2, 3, 4 e 5 (35.6ppj, 5.6rpj e 3.8apj nas finais), ao menos não houve varrida para um dos melhores times e, talvez, melhor dupla da história da liga. Foi a temporada, tratando de aspectos de basquete, de maior sucesso na carreira de Allen Iverson. A Reebok, que não vendia tantos tênis nem com Shaq, esperta, assinou um contrato vitalício com o The Answer, que nomeava o tênis segundo o apelido. Foi nessa temporada que Iverson começou a usar a manga no antebraço, começou por uma contusão no cotovelo, mas o cara é tão impactante que até hoje é usada pelos jogadores. Ídolo ou não?

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“Devia ter patenteado a parada”

Na temporada seguinte, com a ida às Finais passadas, muito se esperava, de Iverson e do Sixers. Lesões, as quais há muito lidava, incomodavam, a ponto de tirá-lo dos jogos. Comparecendo a 60 dos embates da campanha, o Sixers não foi capaz de atender às expectativas, sem Iverson, ficando apenas com a sexta vaga para os playoffs na conferência Leste. Apesar de ser o cestinha da temporada (31.4ppj) pela segunda vez consecutiva, Iverson, neste ano, ficou mais conhecido por atritos com Larry Brown, mais uma vez, e por faltar em treinos, até consagrar o jargão, pelo qual muitas vezes é reconhecido: “and we’re in here talking about practice?”. Depois ficou conhecido de que a causa de ele citar a palavra ‘treino’ catorze vezes foi a morte de um amigo próximo, o que o desestabilizou. Nos playoffs, caíram na primeira rodada para o Boston Celtics, apesar dos 30ppj, 4.2apj e 2.6apj.

Em 2002-2003, Dikembe Mutombo foi trocado, Eric Snow e Aaron Mckie tiveram quedas vertiginosas de rendimento. Iverson, apesar de números de superestrela (27.6ppj, 5.5apj e 2.7spj) encontrou dificuldades de levar o time ao sucesso na pós-temporada, com uma campanha 48-34. Enfrentaram o Hornets de Baron Davis na primeira rodada dos playoffs e venceram em seis jogos. Caíram para o Detroit Pistons na segunda rodada. Ao fim da temporada, Larry Brown se desligou do 76ers, no entanto, não por atritos com Iverson (quem diria, hein?). Brown era muito duro com Allen em diversos momentos, cobrava comprometimento e deu característica ao time do Sixers. Segundo o próprio Iverson, Brown fez dele um jogador melhor (Iverson se tornou um carrapato na defesa, devido a Larry Brown), um profissional melhor (apesar de faltar em treinos) e, acima de tudo, um homem melhor. Quando se reuniram novamente, no time Olímpico de 2004, Allen disse que Larry era o melhor treinador que havia tido.

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Descobri que te amo demais  ♪ 

Com novo treinador, o Sixers penou e Iverson se perdeu sem Larry Brown, e, após uma campanha 21-31, o técnico foi demitido. Sob o comando do técnico interino, Iverson havia voltado aos tempos de ensino médio: como diria o filósofo “baita dum irresponsável, digassi di passagi!”. Foram muitos conflitos, muita treta na mídia, faltas a treinos, multa por faltar a treinos, suspensão por faltar a treinos, suspensão por não avisar que tava doente e, por isso, não poderia jogar. Diversos incidentes que o fizeram perder 34 jogos na temporada, feito que causou a ausência do time nos playoffs, algo que não acontecia desde sua primeira temporada na liga. Teve médias de 26.4ppj, 6.8apj e 2.4spj na campanha.

No ano seguinte, o Sixers era um novo time. Novo ténico, novos companheiros de time, desta vez de qualidade, como Chris Webber e Andre Iguodala, e um Allen Iverson voando novamente. Com médias de 31ppj, 8apj e 2.4spj, o homem fazia vítima atrás de vítima numa rotina diária. Guiou o time aos playoffs (43-39), onde encontrou o Pistons de Larry Brown, campeão daquele ano. Era a chance de Iverson, o time era o melhor que tinha jogado até então, mas mesmo os 31.2ppj, 10apj e 2spj, não foram suficientes para bater aquela aberração  defensiva que era o Detroit Pistons.

Temporada de 2005-2006, o então técnico Jim O’Brien é demitido por conflito com alguns jogadores (não só Iverson, o que é um avanço) e, a lenda da franquia e assistente técnico de Larry Brown naquela equipe finalista, Maurice Cheeks, foi contratado como treinador, algo que Iverson adorou. Apesar dos 33ppj (maior da carreira) concederem o prêmio de cestinha da temporada, Iverson não foi capaz de levar o time aos playoffs, ocorrido pela segunda vez em três anos. Neste ano, Iverson foi multado por não ter impedido seu guarda-costas de espancar outro homem. Tenho a leve impressão de que David Stern, então comissário da NBA, não morria de amores pelo rapaz. No fim desta temporada, no último jogo em casa, Iverson, que deveria fazer uma média com os fãs antes do jogo, apareceu encima da hora, junto a Chris Webber. Cheeks ficou doidão, proibiu Iverson de jogar e pediu ao GM da franquia que aplicasse uma multa, o que foi feito. Começavam, após o término da temporada, rumores de que o Sixers buscava cenários de troca para Allen Iverson, o que não aconteceu, já que a vontade do jogador era permanecer na franquia até se aposentar.

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“Vou dizer que cheguei atrasado porque estava treinando.”

A temporada seguinte começou bem, mas após vacilos e uma campanha negativa, foi noticiado que Iverson havia requisitado uma troca, para a gerência da franquia, o que foi negado pelo jogador. Então ele recebe a notícia de que não jogaria mais nenhum jogo pela franquia. Foi  noticiado em rede nacional, por um dos responsáveis pela gerência do time, que Iverson seria trocado, porque havia pedido, mas o mesmo negava. Uma bagunça. Em dezembro, com a temporada rolando, Iverson, junto a Ivan McFarlin, foi trocado ao Denver Nuggets por Andre Miller, Joe Smith e duas picks de primeira rodada. O time do Colorado tinha, então, no seu plantel Iverson e Carmelo Anthony, os dois primeiros colocados na lista de pontuação da temporada. Iverson teve médias, nas duas equipes de 26.3ppj, 7.2apj e 1.9spj e, com o time de Denver foi aos playoffs, onde caíram na primeira rodada para o San Antonio Spurs, com médias de 23ppj e 6apj.

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“Por favor, marca o Carmelo dessa vez, tá?”

Pode-se afirmar que a imagem de Allen Iverson não era das melhores. Ele ainda era considerado um dos melhores ala-armadores da liga, tinha o respeito dos jogadores e daqueles que o viam como seu ídolo, desde quando ele brigava por representar as ruas, do seu jeito. Mas, talvez seja efeito David Stern, que obrigou os jogadores a irem engomados aos jogos, por conta das roupas de Iverson, a arbitragem simplesmente o perseguia. Steve Javie, aquele que nas transmissões da ESPN você vê o Agra puxar saco, foi o responsável por Iverson pagar uma multa altíssima por receber falta técnica. Um alega uma coisa, outro alega o contrário, perde o rapaz perseguido. Era pessoal. Houve até complô, dois árbitros fizeram uma jura-de-dedinho para não marcar faltas em um jogo que apitaram de Iverson, para ensinar quem é que manda.

Em sua segunda temporada no Colorado, dividia o egoísmo estrelismo com Carmelo Anthony e, com médias de 26.4ppj, 7.1apj e 2spj, foi efetivo e esteve nos playoffs, onde foram varridos pelo Los Angeles Lakers de Kobe Bryant, que seria finalista daquele ano. Esta seria sua última aparição nos playoffs da carreira.

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“Saudades conferência Leste.”

Na temporada 2008-2009, Iverson que havia conquistado valor de mercado novamente, vinha de bons jogos em Denver, não era suficientemente letal para conduzir o time mais longe na pós-temporada e, então, foi trocado junto ao Detroit Pistons por Chauncey Billups (que, cá entre nós, era o que o Nuggets precisava) Antonio McDyess e outro pivô desconhecido. Infelizmente, Larry Brown não era mais treinador do time, que não era mais aquela máquina há muito tempo. Com a camisa #1 agora, Iverson começou a temporada bem, mantendo médias acima de 20 pontos por jogo, mas, aos poucos foi perdendo espaço para o novato armador Rodney Stuckey (!!!), o que o deixava pirado. Iverson chegou a dizer que preferia se aposentar a ser banco de um novato. Mais tarde, Joe Dumars, então GM do Pistons, disse que não via um contrato de longo termo entre jogador e franquia, já que acreditava em Rodney Stuckey (!!!²) para a armação da equipe para os anos futuros. E eu achando que Dumars só havia feito besteira no contrato do Ben Gordon. Como desculpa, publicaram nota oficial dizendo que Iverson não jogaria o restante da temporada por uma lesão nas costas, que o afligia há muito, isso é verdade, mas que foi só para encobrir o fato de que não queriam mais o homem. Teve médias de 17.4ppj e 4.9apj em 54 jogos no Michigan.

Sem contrato na pré-temporada seguinte, Iverson acertou um contrato de um ano com o Memphis Grizzlies, onde seria titular e, segundo ele mesmo, foi o lugar que Deus o apontou para voltar a jogar. Não deu certo, o time tinha Mike Conley e O.J Mayo na armação e o amargar o banco era tudo que Iverson não precisava. Foi desligado ainda em 2009 da franquia por razões pessoais. Ali, jogou apenas três jogos, com médias de 12.3ppj e 3.7apj em 22 minutos jogados.

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“Pensei que, quanto mais velho, menos teria que treinar.”

Já no fim do ano, Iverson pensava em aposentadoria. Problemas pessoais, segundo próximos, o deixavam sem condições de jogar, mas segundo ele, ainda conseguia competir no mais alto nível.  Em Novembro, ambos Iverson e Sixers, entraram em um acordo de um ano de contrato não-garantido com um salário mínimo para veteranos. Parece lindo, não é mesmo? O bom filho à casa torna. A verdade é que Iverson era um jogador que baseou seu jogo numa velocidade estonteante e que, já com 35 anos e marcado por lesões, não rendia o mesmo. Lou Williams, o então armador titular do Sixers, ficaria afastado por conta de lesão, o que garantiu o contrato para Allen Iverson. Em seu primeiro jogo em casa, no retorno, isso:

Sente só.

Em seus últimos 25 jogos pela liga, Iverson teve médias de 13.9ppj e 4apj, onde sua melhor marca foi contra os atuais campeões, Lakers, de Kobe Bryant, com 23 pontos. Em Fevereiro, Iverson pediu para ser afastado por conta da saúde de sua filha, o que seria o fim de sua carreira na NBA, já que nunca mais voltou a pisar numa quadra em um jogo oficial na liga. Nesta temporada foi votado ao All Star Game.

Em finados de 2010, acertou com o Besiktas da Turquia. Jogou apenas 10 jogos, sendo 13 pontos, sua melhor marca. Um tanto quanto deprimente.

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Estilo poucos tem.

Voltou aos Estados Unidos em 2011 para realizar uma cirurgia na canela e ficou sem jogar até 2013, onde conseguiu um contrato na Liga de Desenvolvimento, com o afiliado do Dallas Mavericks, mas recusou. Em 2013 anunciou, oficialmente sua aposentadoria do basquete, havia perdido a “vontade de jogar”. Alguns problemas pessoais e multas continuaram sendo pagas. Infelizmente, o final da carreira de Iverson foi um anticlímax do que poderia ter sido.

 

Mais que um dos melhores jogadores agraciados com a predisposição inata do que fazer com uma bola de basquete, Allen Iverson foi um marco para a NBA. Com isso, mesmo jogadores que conquistaram mais, foram mais disciplinados e exemplares, que foram constantes em sua carreira, não atingiram aquilo que Iverson o fez. Define aquela palavra que todo jovem que ingressa na liga e que viu profissionais da mesma área de atuação serem reverenciados, tornando-se ícones, figuras que permanecem como estandartes, deseja. Legado. Isso não se pode negar, Allen Iverson deixou o seu.

 

Vida para o resto da sua vida, Iverson.

 

5 thoughts on “Saudades de 2000 – Allen Iverson

  • July 29, 2017 at 3:42 am
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    Eu sabia que valia à pena esperar e valeu e me deu muitas saudades!
    Obrigado e parabéns!

  • July 29, 2017 at 3:53 am
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    Caraio cuzão
    Valeu a pena a espera
    Sensacional Galo
    Espero que a vez do Nash não demore

  • July 29, 2017 at 1:45 pm
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    Sensacional…Iverson era demais e o texto tão bom quanto ele…

  • July 29, 2017 at 2:07 pm
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    Eu gostava de ver Iverson jogar no final da década de 90. Putz, o cara era chato de ser marcado, não tinha “respeito” pelos melhores. Chegou na nba, numa época que eu considero a Era Dourada da liga. Com grandes jogadores, times fortes, marcação absurdamente desleal e mesmo assim o cara era cestinha nas partidas. Ele ligava o foda-se e fazia o jogo dele. Pena que o extra-quadra acabou com ele antes do tempo.

  • July 29, 2017 at 9:53 pm
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    Ótima matéria. Aprendi muito. obrigado

Comments are closed.

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