Saudades de 2000 – Vince Carter

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Este é um guia um tanto quanto informal dos ídolos da NBA na década passada. Não é saudosismo, nem a subvalorização das atuais estrelas da liga. Apenas apreciação de umas das melhores gerações, em quesito talento e estrelismo, que os amantes da NBA tiveram. Quaisquer traços de parcialidade ou empolgação exacerbada são mera coincidência.

Vince Carter

A não ser Jason Willians e, talvez, Allen Iverson (esse não só dentro de quadra), Vince Carter foi, certamente, o jogador mais entretecedor dos anos 2000 na NBA. Sem medo, Vinsanity foi o maior dunker (ou o enterrador, né Brasil) que o jogo já viu. Showman. Quem não se lembra do lendário Nike Shox VC? Antes que se pense que Carter era apenas isso, mesmo depois deste vídeo abaixo, já apague esse fogo em dizer que “ain, só sabia enterrar!”. Ele foi um dos melhores da sua geração e se está no Saudades de 2000 é porque era sinistro. Se fosse só por enterrar, Jason Richardson teria seu artigo também. Ah, mano, que saudade.

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Quando alguém fala que só sabia enterrar.

Vince foi mais que isso. Se você leu o artigo sobre Tracy McGrady, vai notar que quando T-Mac chegou ao Toronto Raptors, os dinossauros já tinham seu adestrador, Vince Carter. É interessante ver o divisor de águas que foram estas estrelas para as franquias zé-ninguém que as escolheram. Com Vince não foi diferente. Antes de detalhar sua carreira, eu só queria dizer que Vince Carter foi Novato do Ano, LIDEROU a votação para o All Star Game mais de três vezes (só Kobe ETERNO, LeBron, Jordan  e Doctor J fizeram o mesmo), tem mais de 20 mil pontos na carreira (37º a conseguir o feito), é apenas um dos seis jogadores na história a manter médias de 20ppj, 4rpj e 3apj por DEZ temporadas consecutivas, além de ser apenas o quinto jogador na história a conseguir a marca de 2 mil bolas de três pontos acertadas na carreira. Só sabia enterrar, aham.

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Vince voa para secar o sovaco na redinha.

Carreira

Nascido em Daytona Beach, Florida (1977), Carter desde os dois anos (conversa de mãe essa aí) já tinha contato com a bola de basquete e, crescendo no meio, idolatrava Julius Erving e sua capacidade coperfieldiana de levitar sobre os defensores. Desde aí, já desafiava a gravidade com seus movimentos, tanto que os parça o chamavam de OVNI (risos).  Foi nomeado ao McDonalds All-American (o All Star Game da pirralhada americana) em seu último ano em Mainland High School e era o jogador mais cobiçado pelas universidades no estado, não só porque enterrava, mas porque tinha crescido e, com sua altura, também seu jogo. Tinha ótima visão de quadra, posicionamento para si e para os companheiros, ótimo defensor, Carter teve médias de 25ppj e 11rpj em seu penúltimo ano em Daytona, antes de ingressar na universidade da Carolina do Norte (NCU), sob o comando de Dean Smith, mesmo treinador de Michael Jordan na universidade. Por citar Jordan, em muito se assemelhava o jogo de Vince ao do camisa #23 do Bulls, em seus anos em NCU, inclusive nas críticas por escolher a Universidade e o jogo que não amaciava o estilo dos showmans. Cheio de fãs desde sua primeira temporada, Vince ganhou o apelido de Vinsanity e a camisa #15 dos Tar Heels. Junto a Antawn Jamison, Vince só veio a engrenar em seu segundo ano na universidade com 13ppj 4.5rpj e 2.4 apj em 27 minutos jogados. Ao final do seu terceiro e último ano na Carolina do Norte, Vince, Jamison e CIA caíram nas semifinais do torneio e então se declarou para o draft de 1998. Mais tarde, mesmo na NBA, Vince voltou e graduou-se em estudos Afro-Americanos.

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Se estivesse nu, daria uma obra de arte.

Draftado pelo Golden State Warriors na quinta escolha geral do recrutamento, Carter foi trocado na noite do draft, por Antawn Jamison, quarta escolha, para o Toronto Raptors. Como dito, foi um divisor de águas para a franquia que, abandonada pelo Grizzlies que deixaria Vancouver, Carter foi o grande responsável pelos recordes de público que deteve o time canadense nos anos 2000, 2001 e 2002. O valor da franquia duplicou no período. Eleito Calouro do Ano, Vince terminou a temporada com 18.3ppj, 5.7rpj e 3apj de médias e muita moral pro calouro que era o acionado para os chamados big shots nos finais de jogos. Já em sua segunda temporada, Carter veio pro crime. Com médias de 25.7 ppj, 5.8 rpj e 3.9 apj, Vince conduziu o time de Toronto a sua primeira aparição nos playoffs, a uma campanha positiva (45-37) naquele time que tinha McGrady e o papai Curry, além de ser a atração principal naquele épico campeonato de enterradas de 2000. Neste ano também representou  a seleção americana nos jogos olímpicos e outra enterrada mítica. Aprecie.

Seloco. 

Igual a Daiane dos Santos, mas um pouco mais alto.

Nesta temporada caíram na primeira rodada para o New York Knicks e a cobrança em Carter aumentava, principalmente num lance crucial no segundo jogo onde Vince, ao invés de Kobe bryantiar, LeBron jamesou e passou a bola para um companheiro livre, que errou, no lance decisivo do jogo. Ao fim da temporada ocorreria a saída de Tracy McGrady do Canadá para o Orlando Magic e a consolidação de Carter como o único franchise player. Dá até uma agonia de pensar nos dois jogando juntos em seus respectivos auges.

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“Nossa, Tracy, que desgraça!”

Na temporada seguinte, sua terceira foi onde o Raptors, sob o comando de Vince (27.6ppj, 5.5rpj e 3.9apj) alçou vôos mais altos, chegando às semifinais de conferência, onde enfrentariam os finalistas daquele ano, o Philadelphia 76ers, de Allen Iverson. Aquela série recheada de embates épicos entre ambos (50 pontos de Vince, segunda maior marca de bolas de três pontos convertidas em um único jogo de playoffs(9), 52 pontos para Iverson), terminou com um jogo 7, onde Carter teve a chance de vencer o jogo a 2.0 segundos do fim, numa bola de três na zona morta, mas não converteu. A pressão, desta vez por tentar, mas não acertar, cresceu.

Na pré-temporada seguinte, Vince Carter assinou uma extensão contratual de seis anos com a franquia canadense. A temporada seria a primeira marcada pelas lesões na carreira do jogador. Jogou sessenta jogos (24.7ppj, 5.2rpj e 4apj), foi votado ao All Star Game, mas, por conta de lesão, não participou. Neste ano, contra o Nuggets, Carter teve atuação memorável com 42 pontos, 15 rebotes, 5 assistências e 5 roubos, sendo apenas o segundo jogador na história a conseguir tais números, desde quando a NBA passou a computar roubos de bola. Nos playoffs daquele ano, com Carter lesionado, o Toronto foi batido pelo Detroit Pistons na primeira rodada. No seguinte ano, lesões. Jogando apenas 43 jogos, Carter ainda teve números expressivos quando jogou, mas não foi o suficiente para levar os raptores aos playoffs. Pra piorar, no fim da temporada, foi diagnosticada a doença de Sinding-Larsson-Johansson, uma tendinite patelar. Tendinite no joelho de um jogador com características explosivas. Começaram as dúvidas acerca do seu impacto no jogo, por conta disso.

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Quem dera fosse dor de barriga.

Em 2003-04, penúltima temporada no time canadense, com a campanha em 50%, Raptors brigando por playoffs, advinha: lesão, não só dele, mas também de outras peças importantes àquele time. Mesmo com as médias de 22.5ppj, 4.8rpj e 4.8apj, não foi o suficiente para levar o time aos playoffs novamente. Em uma reunião na offseason daquela temporada, o então presidente da franquia se reuniu com Carter afim de estabelecer os novos rumos da franquia e encher a bola do Vinsanity. Prometeu concorrência por Steve Nash e Jamal Magloire e Julius Erving como GM. Coisa nenhuma. Foi contratado outro GM, que tinha a mentalidade de reconstrução da equipe, aquelas coisas de draft, enxugar CAP e outras baboseiras. Então, para coroar tudo, no draft vindouro, deixam passar ANDRE IGUODALA para draftar o tupiniquim Rafael Araujo (o Bebê, ele mesmo) na OITAVA escolha geral do recrutamento. Selo Mitch Kupchack de ‘como-agradar-a-sua-estrela-que-quer-vencer’. Após tretas, incentivo da torcida, queda de braço com técnico, tomar chá de banco em quartos períodos, perder titularidade, na temporada seguinte, após 20 jogos pela equipe do Raptors, foi trocado junto ao New Jersey Nets por Alonzo Mourning, Eric Williams, Aaron Williams e escolhas de draft. Detalha que Mourning nem se apresentou ao time canadense (risos).

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“Mas o que é isso, Raptors?”

Em Nova Jersey, Carter jogaria ao lado de Jason Kidd e Richard Jefferson, naquele esquema repleto de shooters que levaram os Nets a duas Finais de NBA. Com Kidd comandando o ataque, Vince terminou a temporada com ótimas médias de 27.5ppj, 5.9rpj, e 4.7apj e indícios de que poderia ser o jogador que tinha o impacto de outrora.  Na temporada seguinte à que chegou aos Nets, Vince havia recuperado seu instinto em pontuar e sua saúde. Ao fim da temporada, teve 24.2ppj, 5.8rpj e 43apj em 79 jogos, classificando a equipe em terceiro. Nos playoffs, Carter elevou o nível do seu jogo (29.6ppj, 7rpj, 5.3apj), mas parou no Miami Heat, campeão da temporada, nas semifinais.  Na temporada seguinte, mantendo médias semelhantes (21,3ppj,6rpj e 5.1apj), parou novamente nas semifinais de conferência nos playoffs, perdendo para o Cleveland de LeBron James. Vince, nesta pós-temporada, não conseguiu impactar como no ano anterior e assim seria até os dias de hoje.

Uma marca interessante, na temporada seguinte foi no dia em que Carter (46 pontos, 16 rebotes e 10 assistências) e Kidd (10 pontos, 16 rebotes e 18 assistências) terminaram um jogo com triple-double, algo que não ocorria desde 1989, com Jordan Pippen, na mesma equipe. Destaque para os 82 jogos em que Vinsanity esteve presente naquela campanha. Em 2008, com Kidd trocado, Carter conduziu e muito bem o Nets (20.8ppj, 5.1rpj e 4.7apj) com o elenco fragilizado, mas sem sucesso de conduzir aos playoffs, ficava evidente que o impacto que causava não era mais dos superstars da liga. Vale ressaltar que, em quatro anos em Nova Jersey, Vince esteve ausente apenas em 11 jogos. Números impressionantes para alguém com tendinite patelar.

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Olha esse tênis. Clássico.

Na temporada 2009-2010 foi trocado ao Orlando Magic, finalista no ano anterior. Teve lampejos do jogador que foi (48 pontos sobre os Hornets) ajudou o Magic, mesmo que com um papel no time bem diferente do que estava acostumado, a chegar às finais de conferência, onde foram batidos pelo Boston Celtics. Na seguinte temporada, foi trocado ao Phoenix Suns, junto a Marcin Gortat, por Turkoglu, Jason Richardson e Earl Clark (saudades). Teve números nada carterianos (14ppj, 3.8rpj, 2apj) e, mesmo que tenha alcançado a marca dos 20 mil pontos na carreira, não foi o suficiente para, junto de Steve Nash, levar aquele time aos playoffs. Mesmo com mais um ano de contrato, sendo este team option, o time do Arizona decidiu liberar o jogador, que se tornou agente livre.

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Vince ao descobrir que não teria os curandeiros de Phoenix à sua disposição.

Após isso, assinou um contrato de três anos com o Dallas Mavericks, atual campeão, para jogar ao lado de Jason Kidd e Dirk Nowitski. Não tiveram mais sucesso nos playoffs desde então e, mesmo sua melhor temporada (13.4ppj, 4.1rpj e 2.4apj) denotava a queda de rendimento. Vale lembrar que nessa passagem Carter conseguiu o sétimo lugar na lista de mais bolas de três pontos, a marca de 23 mil pontos e, por conseqüência, o 22º lugar na lista dos maiores pontuadores da história.

De 2014 até os playoffs de 2017, Carter jogou pelo Memphis Grizzlies. Não creio que seja necessário mencionar que a quantidade de minutos e jogos caiu rigorosamente, assim como os números. Ainda houve lampejos do Vinsanity da última década, mesmo que com freqüência e intensidade menores. Cabe o registro de um dos melhores jogadores da última década, dos mais idolatrados e, mesmo com um alto número de lesões, conseguiu moldar seu jogo de acordo com o que o corpo pedia. Não teve o mesmo impacto, mas cabe a admiração pela sua longevidade na liga. Afinal, meter 20 pontos com 40 anos não é pra qualquer um.

Nem assisti, mas aposto que são 10 enterradas.

Vida para o resto da sua vida, Vince.

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