Saudades de 2000 – Tracy McGrady

Este é um guia um tanto quanto informal dos ídolos da NBA na década passada. Não é saudosismo, nem a subvalorização das atuais estrelas da liga. Apenas apreciação de umas das melhores gerações, em quesito talento e estrelismo, que os amantes da NBA tiveram. Quaisquer traços de parcialidade ou empolgação exacerbada são mera coincidência.

Tracy McGrady

Quem viu T-Mac sentado no banco do San Antonio Spurs, em seu final de carreira, num ato de desespero por ganhar uma série de playoffs, ou até mesmo um título (obrigado, Ray Allen!), vê apenas o final da carreira do que foi um espetacular jogador. O homem dos olhos brisados era sinistro. Um dos melhores jogadores de sua geração, um scorer letal, T-Mac era o terror dos adversários (ou o mismatch cabuloso pra você, modinha-que-pensa-que-é-gringo) por uma combinação rara de altura, velocidade, força e técnica. Basta mostrar o vídeo dos 13 pontos em 33 segundos, pra apenas salientar que o homem foi um absurdo de jogador e, não fossem as lesões, seria muito mais reconhecido do que é hoje. O declínio em sua carreira, ocasionado por consecutivas lesões, talvez fossem o suficiente para deixar apenas para fins de arquivo o quão sinistro era o camisa #1 do Orlando Magic, onde teve seus melhores anos. Felizmente, ele foi bom demais pra não ser lembrado. Qualificado como o jogador mais difícil que Kobe Bryant enfrentou (e olha que a lista vai de Michael Jordan – já no bico do corvo -, passa por Allen Iverson e chega a LeBron James), Tracy McGrady é daqueles jogadores, como Grant Hill, Brandon Roy e Chandler Parsons (mentira), que o faz refletir numa tarde chuvosa de domingo, de onde teria chegado se o corpo não tivesse pedido arrego. Que tal a gente aumentar as expectativas nesse restante de artigo e apelar logo para o vídeo?

Nem no 2K você consegue, hein.

Carreira

Nascido em Bartow, Flórida (1979), T-Mac teve o baseball como o primeiro esporte a praticar. Cresceu em condições adversas, no meio de violência, típica daquelas cenas de filmes dos ghettos, ocasionando, inclusive, a morte do seu pai. Inspirado pela malemolência do armador que era um indício do que seriam os combo guards de hoje, Peeny Hardaway, McGrady entrou de cabeça no mundo do basquete. Em seu primeiro ano no Ensino Médio no Instituto de Auburndale, Tracy era subutilizado pelo técnico e, só em sua terceira temporada no time, despontou com médias de 23ppg e 12rpg, até ser convidado para o torneio da Adidas, onde chamou a atenção de todos que acompanharam o menino. Sabendo da ‘ousadia e alegria’ do garoto que tinha futuro, Alvis Smith, agente da Adidas, procurou um outro colégio, de renome, para T-Mac se destacar e ganhar muito dinheiro com sua profissionalização, que era questão de tempo. Transferido para Mount Zion Academy, na Carolina do Norte, Tracy se mostrou o jogador que todos pensavam que seria. Mudou a equipe de patamar, era versátil, atuava em todos os fundamentos e posições do jogo com excelência, se dedicava ao basquete de modo a não ficar devendo para nenhum Hall of Famer da vida. Nomeado Jogador do Ano e do Estado em 1996-97, T-Mac terminou a temporada com 27,5 pontos, 8,7 rebotes, 7,7 assistências e 2,8 roubadas de bola de médias. Quase nada versátil, né?

Resultado de imagem para tmac high school
T-Mac já tinha olhos de sono.

Assim como outras estrelas da década, Tracy McGrady foi direto do Ensino Médio para a NBA, tornando-se elegível no draft de 1997. Escolhido pelo Toronto Raptors na 9ª escolha do recrutamento, sexto homem era o papel bem executado por McGrady no time que já tinha dono, seu primo e showman, Vince Carter. Já em sua terceira temporada no time canadense, muito incomodava o fato de ser apenas o sexto homem do time, ser titular em poucas partidas e a dor de cotovelo bateu forte.

Imagem relacionada
“Mas, Vince. Eu também quero um cartaz com o meu nome!”

Mesmo que não admitisse publicamente, sentia inveja do Vinsanity. Ele não queria mais jogar com o primo (lamentável, imagina o que os dois não fariam juntos em seus auges). Mesmo com uma proposta de renovação por parte dos Raptors, T-Mac, em decisão conjunta com o seu devorador de estatísticas dinheiro, resolveu ser agente livre no fim da temporada 1999-2000, na qual o time avançou aos playoffs mas pararam logo na primeira rodada. Essa tinha sido, até então, sua melhor temporada na liga.

No término do contrato e já agente livre, T-Mac, após assédio do Bulls sem Jordan e Miami Heat que era um zé-ninguém no mapa da NBA, optou por assinar com o outro zé-ninguém da Flórida, onde nasceu, mas que poderia usar a camisa #1 de seu ídolo. Logo em sua primeira temporada por lá, era titular do time, teve seu melhores números até então (26.8ppg, 7.5rpg e 4.6apg e 47%FG) e, ao lado de Grant Hill e Mike Miller, levou o Orlando Magic aos playoffs, mas, sem sucesso, não passou da primeira rodada. Em sua segunda temporada, manteve números similares da temporada anterior e, apesar de lesões o tirarem de alguns jogos, a equipe foi aos playoffs, caindo, como você já deve ter sacado, na primeira rodada novamente. Esteve no All Star Game da temporada também.

Resultado de imagem para tmac orlando
Cara de choro porque foi parar  no Orlando Magic.

Em sua terceira temporada no time, McGrady teve seu melhor ano na carreira com médias de 32.1ppg, 6.5rpg, 5.5apg, 1.4spg, 0.6bpg e 45,7%FG, foi cestinha da temporada e terminou em quarto na corrida pelo MVP. T-Mac foi dominante, mesmo caindo na primeira rodada dos playoffs (novidade) para o Pistons, numa virada de 3-1 para 4-3. Imagino se teriam coragem de chamar o homem de pipoqueiro se jogasse hoje (alô, DeRozan!). Nesta temporada cabe a famosa reflexão da tarde de domingo. A liga contava com Shaquille O’Neal humilhando todo e qualquer garrafão da liga, Allen Iverson quebrando regras e tornozelos, Kobe Bryant sendo Kobe (ETERNO), Tim Duncan sendo o ciborgue de sempre, Kevin Garnett fungando no cangote de geral, mas não era nenhum absurdo dizer que Tracy McGrady era o melhor jogador de basquete da NBA naquele ano. Não são apenas os números, reflete em questões do jogo que o fazem indagar realmente como teria terminado a carreira do cara e, mais ainda, se lamentar por não ter presenciado uns anos a mais de NBA com um T-Mac avassalador.

Resultado de imagem para tmac kobe
Muita nostalgia em uma foto só.

Na quarta temporada em Orlando, T-Mac não teve o mesmo sucesso das anteriores ,apesar de números bem relevantes, terminando a temporada fora dos playoffs e, com a iminente chegada do astro do Ensino Médio, Dwight Howard na terra do Mickey, T-Mac se viu fora da posição de franchise player e optou por sair do seu contrato com o Magic e assinar com o Houston Rockets de Yao Ming. Era mais uma dupla em mais um time selvagem na conferência Oeste. Foram neste mesmo ano, contra o Spurs, os 13 pontos em 33 segundos. Vale a pena ver de novo.

Aqui o vídeo com um pouco mais de enrolação.

Como é intrínseco ao artigo, o Houston Rockets não avançou às semifinais do Oeste, mesmo com ótimas partidas de T-Mac (30.7ppg, 7.4rpg e 6.7apg) na série. E então, em sua segunda temporada pela equipe vermelha do Texas, começam as séries de lesões que o atormentariam pela carreira. Jogando apenas 47 partidas das 82, o esforço de McGrady não foi o suficiente para levar o time aos playoffs, apesar de ser selecionado para o All Star Game, que foi sensacional aquele ano. No ano seguinte, foi atrás de um especialista de joelhos para lidar com as dores e voltou voando, estando presente em 71 partidas, coletando números expressivos (24.4ppg, 6,5rpg e 4.8apg) e classificando a equipe aos playoffs, mas (advinha) caindo na primeira rodada novamente. Ah, tudo bem se quiser chamá-lo de pipoqueiro. Na terceira temporada em Houston, mais uma vez lesões, porém, dessa vez, Yao Ming e Steve Francis faziam companhia na fisioterapia, pelo menos. Foram aos playoffs e caíram na primeira rodada, novamente para o Utah Jazz.

Resultado de imagem para tmac yao
Olha quantos meses nóis vai ficar parado.

Foi então que o Houston Rockets contratou Ron Artest. Não só para cotovelar o adversário, mas para jogar basquete. Sim, o Panda Friend era um ótimo jogador de basquete dos dois lados da quadra e, ao lado de Yao Ming e McGrady, faria barulho nos lados do Oeste. Coisa nenhuma. T-Mac foi submetido à cirurgia no meio da temporada e, a partir desse momento até a temporada seguinte, sua última em Houston, não era mais o mesmo jogador.

O detalhe dado a estas temporadas é apenas pra mostrar que oportunidades não faltaram para ter ido mais longe na pós-temporada e que, “MALDITAS LESÕES!”.

Resultado de imagem para tmac ron artest
Ambos da esquerda se lesionaram só de olhar o cotovelo do Artest.

Em suma, no ano seguinte ao último no Texas, T-Mac foi para a Big Apple jogar pelo Knicks. Sem sucesso e jogando pouco, teve sua temporada menos expressiva desde que chegou à NBA. No ano seguinte, assinou um contrato de mínimo para veteranos com o Detroit Pistons e (olha só!) jogou 72 partidas, mas com números nada T-Macianos. O corpinho cobrava. Nem aos playoffs foi.

No ano seguinte, após o lockout, Tracy assinou um contrato com o Atlanta Hawks, time de playoffs. Chegando lá, T-Mac saudável (agora vai, hein!), foi apenas um comum role player, tendo minutos quase inexpressivos, o que não foi o suficiente para a zica que carrega consigo não fazer efeito. Caíram na primeira rodada. Depois de tentar a sorte no basquete chinês e terminado o campeonato em último colocado (“QUE FAAAASE”), em 2013, T-Mac voltou à NBA para compor o elenco do remendado San Antonio Spurs. Teve sua última participação nos playoffs e (finalmente) ganhou séries por lá, mesmo sem jogar, o que deve contar pra algo. Mas o azar era tanto que perderam para o Miami Heat naquela bola do Ray Allen. Depois disso, anunciou a aposentadoria da NBA.

Resultado de imagem para tmac spurs
T-Mac se pergunta como pôde nascer tão zicado.

Há diversas teorias de que Tracy McGrady poderia ter sido o melhor de sua geração ou até mesmo o melhor de todos (risos, D’Angelo Russell), mas fica a história de um dos melhores de sua geração que, por lesões, perdeu o atleticismo e o impacto que tinha sobre o jogo.

Pra dar um pouco mais de saudade.

Máximo respeito e admiração.

Vida para o resto da sua vida, T-Mac.

1 Shares
Share1
Tweet